Bets: o apostador sempre perde.
Ricardo Mucci – Board Advisor | Expert em Longevidade e Economia Criativa | Geração Bossa Nova | Advisor e Head de Conteúdo da Gazeta Mercantil | Instituto Heartfulness Brasil |
A explosão das plataformas de apostas esportivas — as chamadas bets — tornou-se um dos fenômenos sociais mais preocupantes do Brasil contemporâneo. Em poucos anos, passaram do entretenimento ocasional para uma atividade com impactos econômicos, sanitários e familiares de escala nacional. E os números mais recentes deixam claro que o problema se agravou significativamente desde que o debate ganhou as primeiras páginas. Outro fator que influencia a tomada de decisão é a escassez de informação confiável, já que transparência não é uma prática comum do setor.
O episódio recente do sigilo de 100 anos revela com nitidez a ambiguidade do Estado brasileiro diante das bets. Em junho de 2026, o Ministério da Fazenda negou a jornalistas o acesso ao processo que autorizou a 1xBet a operar no país, citando dispositivo da Lei de Acesso à Informação que permite sigilo de até um século sobre dados de sócios, administradores e beneficiários finais. Ficariam protegidos da vista pública não apenas os nomes dos donos das casas de apostas, mas também a forma como foram pagos os R$ 30 milhões cobrados por cada licença de outorga. Sob pressão da imprensa, o governo recuou em menos de 24 horas, anunciando força-tarefa com a Controladoria-Geral da União para publicar proativamente os processos já concluídos.
O fato reabriu a memória de uma promessa antiga: em setembro de 2022, ainda candidato, Lula afirmara que acabaria com o sigilo de cem anos caso fosse eleito. Reeleito, foi o seu próprio governo que primeiro tentou aplicá-lo em um setor que, segundo especialistas, cresce em ritmo descontrolado: a receita tributária das bets passou de R$ 2,2 bilhões para R$ 4,5 bilhões entre janeiro e abril, comparando 2025 com 2026: um salto que coloca o setor de apostas no mesmo patamar de arrecadação de indústrias historicamente relevantes para o Estado, como tabaco e agronegócio.
O contraste é desconfortável e revelador. Enquanto o presidente discursa publicamente contra o endividamento das famílias causado pelas apostas, e chega a dizer que fecharia o setor “se pudesse”, o mesmo governo sanciona a lei que o regulamenta, estrutura a secretaria que concede as licenças e passa a depender cada vez mais da receita que esse mercado gera para os cofres públicos. Tentar blindar por um século a forma como esse dinheiro circula não é apenas erro de comunicação. É sintoma de um Estado que descobriu, ao mesmo tempo, o problema de saúde pública e a fonte de receita, mas ainda não decidiu qual dos dois pesa mais na balança.
As bets foram legalizadas por Medida Provisória do governo de Michel Temer em 2018, e atravessaram todo o governo de Jair Bolsonaro sem regulamentação, responsabilidade do então ministro da Economia Paulo Guedes. Durante o período do vácuo legal, o mercado foi explorado sem restrições nem tributação específica por empresas nacionais e estrangeiras. Esse período marca a evolução dos investimentos maciços das bets em propaganda, praticamente monopolizando a publicidade dos eventos esportivos, desde times de futebol do Brasil a publicidade nas transmissões de rádio e TV.
A regulamentação somente foi aprovada pelo Congresso no final do ano legislativo de 2023, e passou a valer a partir de 1º de janeiro de 2024. Portanto, durante seis anos não houve registro oficial sobre as ações do setor até o início do segundo ano do governo Lula.
Impacto no Brasil
O volume de recursos movimentado pelas bets impressiona mesmo em estimativas conservadoras. Dados do Banco Central apresentados na CPI das Apostas Esportivas, em abril de 2025, indicaram que os brasileiros chegaram a destinar até R$ 30 bilhões por mês às plataformas de apostas naquele período. Em 2025, a receita bruta das empresas reguladas pela Secretaria de Prêmios e Apostas alcançou aproximadamente R$ 37 bilhões, valor que já posiciona o Brasil como o quinto maior mercado de apostas do mundo.
Quanto ao número de apostadores, o quadro mais atualizado vem da 9ª edição do Raio-X do Investidor Brasileiro, pesquisa da Anbima em parceria com o Datafolha divulgada em abril de 2026: o percentual de brasileiros que apostam em bets cresceu de 14% em 2023 para 17% em 2025, o equivalente a cerca de 28 milhões de pessoas. A própria Secretaria de Prêmios e Apostas contabilizou 25,2 milhões de apostadores ativos no período. O perfil predominante é de homens (66%), com idade média de 35 anos, renda familiar de R$ 5.402 e ensino médio completo, concentrados na região Sudeste. Entre as gerações, a Geração Z (16 a 29 anos) se destaca com 27% de adesão, seguida pelos millennials (22%), a Geração X (10%) e os boomers (4%).
O custo desse crescimento começa a ser dimensionado com mais rigor. Um estudo inédito do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), em parceria com a Frente Parlamentar da Saúde Mental e a Umane, estima que os prejuízos sociais ligados às bets chegam a R$ 38,8 bilhões ao ano, dos quais R$ 30,6 bilhões recaem diretamente sobre o sistema de saúde. Para efeito de comparação, esse valor representaria uma expansão de 26% no orçamento do Minha Casa, Minha Vida ou 23% a mais no Bolsa Família de 2024. É dinheiro que sai do bolso das famílias e entra num sistema que o Estado teria que financiar para tratar as consequências.
As apostas não afetam apenas programas sociais. Tornaram-se também um problema de saúde pública com diagnóstico claro. Uma pesquisa da FAPESP indica que 10,9 milhões de brasileiros apostam de forma considerada arriscada, representando 6,8% da população com mais de 14 anos. Destes, cerca de 1,4 milhão já apresentam comportamento compatível com transtorno do jogo, caracterizado pela incapacidade de parar de apostar mesmo diante de perdas financeiras e prejuízos pessoais graves. Os pesquisadores do IEPS afirmam que o crescimento acelerado do setor “já apresenta impactos significativos sobre o endividamento das famílias, o aumento dos casos de transtorno do jogo e o agravamento de quadros de sofrimento mental”.
O impacto sobre o endividamento das famílias agora tem respaldo econométrico. Um estudo da FIA Business School em parceria com o Ibevar – Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo, analisando dados entre 2011 e 2025, concluiu que o impacto estatístico das apostas sobre a dívida doméstica supera com folga os fatores tradicionais. O coeficiente associado às bets foi de 0,2255, enquanto o efeito dos juros ao consumidor ficou em 0,0709 e o do crédito sobre a renda em 0,0440, ou seja: o peso das apostas é quase o dobro da soma desses dois fatores. Entre janeiro de 2023 e março de 2026, as dívidas dos consumidores decorrentes das apostas resultaram em uma perda de R$ 143 bilhões para o comércio varejista – valor equivalente ao total de vendas registradas nos períodos natalinos de 2024 e 2025 – e cerca de 270 mil famílias chegaram a uma situação de inadimplência severa, com atrasos superiores a 90 dias. A Confederação Nacional do Comércio alerta que homens, famílias de baixa renda, pessoas acima de 35 anos e aquelas com maior escolaridade (ensino médio completo) apresentam maior vulnerabilidade aos efeitos das apostas.
Nesse cenário, um dado chama atenção pela sua dimensão simbólica: levantamento do Banco Central apontou que cerca de R$ 3 bilhões pagos por meio do Bolsa Família foram usados em apostas via Pix apenas em agosto de 2024, embora um estudo contratado pelo próprio setor de apostas tenha apresentado posteriormente uma estimativa bem menor, de R$ 210 milhões, para o mesmo período, evidenciando a disputa de narrativas também no campo dos números. Recursos de transferência de renda destinados às famílias mais vulneráveis do país sendo canalizados para plataformas de apostas é, por si só, um indicador da urgência do problema, independentemente de qual das duas estimativas mais se aproxime da realidade.
Guerra das bets
Em paralelo à polêmica do sigilo, surgiu uma nova frente de disputa no mercado. As empresas regulamentadas pediram à Secretaria de Prêmios e Apostas, do Ministério da Fazenda, que bloqueasse as operações da Kalshi e do Polymarket no Brasil, dois sites classificados como “mercados de previsão”, nos quais se apostam em eventos futuros que vão do resultado do paredão do Big Brother Brasil a eleições presidenciais. O argumento das bets: não há diferença substantiva entre um mercado de previsão e uma aposta comum, e como essas plataformas não têm sede no país, deveriam ser consideradas ilegais. Em abril de 2026, o governo bloqueou um total de 27 sites, incluindo Kalshi e Polymarket, sob o argumento de “apostas ilegais”, com o ministro da Fazenda afirmando que a medida faz parte de um esforço mais amplo para proteger as finanças dos brasileiros. A decisão afetou diretamente a Kalshi, cofundada pela brasileira Luana Lopes Lara, de 29 anos, que havia declarado publicamente que o Brasil era estratégico para seus planos de expansão.
Há uma tensão real nesse episódio que vai além da disputa comercial entre plataformas concorrentes. A pergunta que o episódio coloca não é apenas quem deve ou não operar no mercado brasileiro. É se o modelo de regulação atual, que autoriza empresas com histórico questionável enquanto pune outras por ausência de licença formal, está de fato protegendo o cidadão ou apenas organizando o mercado para os mais bem posicionados.
A regulação necessária
Do lado da regulação, o Brasil avançou, mas com contradições relevantes. A casa de apostas 1xBet, banida em vários países da Europa por histórico de operação ilegal e conexão com crimes como lavagem de dinheiro, recebeu autorização do Ministério da Fazenda para funcionar no Brasil em julho de 2025. A licença foi publicada na portaria SPA/MF nº 1.666, em 29 de julho de 2025, em nome da empresa DEFY LTDA, com sede em Caxias do Sul, com validade até julho de 2030. A autorização chegou com um detalhe constrangedor: processos judiciais mostram que a plataforma já atuava de forma clandestina no país desde janeiro de 2025, quando entrou em vigor o mercado regulado, bloqueando prêmios de apostadores e exigindo novos depósitos para liberar saques.
Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central, junto com Rebeca Freitas, diretora de Relações Institucionais do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, e Paulo Chapchap, diretor geral do Hospital Sírio-Libanês, afirmaram em artigo conjunto: “Apostas online são produtos que geram danos coletivos e precisam ser regulados com base na proteção da saúde, e não na lógica comercial. O que se apresenta como entretenimento já revela um custo social preocupante: transtornos do jogo, endividamento de famílias, sofrimento mental e perda de renda.” E concluíram com uma demanda objetiva: é urgente avançar em medidas que reduzam a exposição da população, incluindo a proibição de publicidade de bets.
O próprio presidente do BC, Gabriel Galípolo, em depoimento à CPI das Bets em abril de 2025, reconheceu que a autoridade monetária havia inicialmente subestimado o montante pago em prêmios aos apostadores. Segundo o secretário-executivo do BC, Rogério Lucca, a estimativa preliminar apontava retorno de 85% dos valores apostados aos próprios apostadores — número inferior ao calculado pela Secretaria de Prêmios e Apostas, que estima entre 93% e 94% de retorno. A divergência entre os órgãos do próprio governo sobre um dado tão básico ilustra a dificuldade de fiscalização que ainda marca o setor.
O debate, portanto, não comporta simplificações. A regulamentação do setor é necessária para gerar arrecadação e coibir o caos completo. Mas regular sem proteger é entregar o cidadão ao mercado de incertezas com carimbo oficial. O Brasil precisa decidir se as bets são um setor econômico legítimo com responsabilidade social proporcional, ou se são, como afirmam os especialistas de saúde, produtos de alto risco que exigem o mesmo tratamento do tabaco e do álcool: restrição de publicidade, advertências obrigatórias, financiamento compulsório de tratamento e limites reais à exposição dos mais vulneráveis.
A aposta, agora, é no futuro das bets: fica tudo como está ou se submetem às regras?
A resposta está com o Governo Federal.
Fontes: IEPS / Frente Parlamentar da Saúde Mental / Umane — A Saúde dos Brasileiros em Jogo (2025); FIA Business School / Ibevar (2026); CNC — Confederação Nacional do Comércio (2026); Anbima/Datafolha — 9ª edição Raio-X do Investidor Brasileiro (2026); Banco Central do Brasil — depoimento à CPI das Apostas Esportivas (abril 2025); Secretaria de Prêmios e Apostas / Ministério da Fazenda; Portaria SPA/MF nº 1.666/2025; Agência Brasil; Poder360.
