A riqueza muda de cara e de propósito.

Ricardo Mucci – Board Advisor | Expert em Longevidade e Economia Criativa | Geração Bossa Nova | Advisor e Head de Conteúdo da Gazeta Mercantil | Instituto Heartfulness Brasil 

Nos últimos meses, o tema da transição de fortunas ganhou destaque na mídia internacional, por conta do impacto que deverá exercer no destino do capital. Há um consenso raro entre bancos, fundos e economistas: o mundo vive a maior transferência de riqueza da história dos Estados Unidos. As estimativas variam conforme a metodologia: o UBS fala em cerca de US$ 80 trilhões em duas décadas, a Cerulli Associates projeta US$ 124 trilhões até 2048, a Knight Frank trabalha com US$ 90 trilhões, mas o vetor é o mesmo. A geração dos babyboomers (nascidos entre 1946 e 1964), a mais rica que já existiu, começa a repassar seu patrimônio para cônjuges, Geração X, millennials e Geração Z. O que torna esse movimento singular não é apenas o volume. É a distância de perfil entre quem transfere e quem recebe o patrimônio.

Herdeiro de dinheiro, não de propósito

O relatório da Allianz sintetizou bem o paradoxo: os boomers enriqueceram numa janela histórica irrepetível – habitação acessível, bolsas em alta prolongada, décadas de crescimento – enquanto os millennials atravessaram “crise após crise” e acumularam proporcionalmente muito menos. A riqueza que muda de mãos, portanto, não foi construída pelos herdeiros e dificilmente seria por eles reconstruída nas mesmas condições.

Essa descontinuidade é também demográfica e cultural. Na leitura de Paul Donovan, economista-chefe do UBS, a geração que herda é sensivelmente mais jovem, mais feminina e mais plural. Ele destaca dados da Gallup: cerca de 3% dos boomers se identificam como LGBTQ+, contra aproximadamente 10% dos millennials e 23% da Geração Z. Some-se a isso o fator viuvez – mulheres vivem, em média, mais que os homens e costumam se casar mais jovens – e o resultado é que boa parte do patrimônio passará, ao menos temporariamente, ao controle de esposas sobreviventes.

A implicação mais interessante para quem observa o fenômeno de perto é esta: muda não só quem detém o capital, mas o destino dele a partir daí. Estudos como o da Morgan Stanley (2023) já mostravam demanda crescente por investimentos ligados a equidade e inclusão entre investidores jovens e famílias com membros LGBTQ+. Doadoras mulheres solteiras, segundo a Stanford Social Innovation Review, tendem a distribuir filantropia de forma mais ampla que seus pares masculinos. O dinheiro que nasceu de uma atividade pode financiar propósitos bem diferentes daquele que o originou.

O Brasil nesse contexto

Infelizmente, o Brasil não dispõe de dados tão precisos quantos os do Wealth Report da Knight Frank ou do Global Wealth Report do UBS aplicados ao recorte geracional-sucessório. Nossa cultura de planejamento patrimonial ainda é incipiente: holdings, trusts e doações organizadas são exceção, não regra. Mas os indicadores disponíveis mostram que a migração de capital não é um fenômeno exclusivamente americano.

O próprio UBS, no Global Wealth Report 2026, registrou 9.215 novos milionários brasileiros em 2025, elevando para cerca de 386 mil o total de pessoas com patrimônio acima de US$ 1 milhão — a maior população milionária da América Latina. Há ainda cerca de 43 mil brasileiros na faixa de US$ 5 milhões a US$ 100 milhões, grupo que cresce a um ritmo médio próximo de 10% ao ano desde os anos 2000. A riqueza conjunta dos bilionários nacionais avançou mais de 50% em um único ano.

Só que, no Brasil, essa pujança no topo convive com uma base estagnada. Medida pelo coeficiente de Gini – que varia de 0 a 1 e indica o índice de concentração patrimonial do país, sendo que valores mais próximos de 1 significam maior desigualdade – a riqueza nacional atinge 0,81. É o 4º índice mais alto entre os 56 mercados analisados pelo UBS, atrás apenas de Emirados Árabes, Rússia e África do Sul. Na prática, isso significa que cerca de 69% dos adultos brasileiros têm patrimônio inferior a US$ 10 mil, enquanto a riqueza mediana – a do brasileiro que está exatamente no meio da escala – encolheu mais de 20% entre 2020 e 2025. A Oxfam estima que 63% de toda a riqueza do país esteja nas mãos de 1% da população. Ou seja: também vivemos uma “grande transferência”, mas ela parte de um ponto de concentração muito mais agudo que o americano. Há um traço estrutural relevante: 73,3% da riqueza bruta das famílias brasileiras está em ativos financeiros, proporção superior à de Japão e Alemanha e próxima à dos EUA. Isso torna a herança nacional mais líquida e, portanto, mais facilmente redirecionável para novas classes de ativos do que quando o patrimônio estava imobilizado em terra e tijolo, como nas gerações pré-1964.

E os herdeiros brasileiros também têm outra cara. A participação de jovens (25 a 39 anos) entre os investidores da B3 saltou nos últimos anos; a fatia de investidores jovens acompanhada pela ANBIMA subiu de 26% (2021) para 34% (2022). Pesquisa da Rico/XP mostra uma geração digital, empreendedora e voltada à independência financeira: cerca de 19% pretendem abrir o próprio negócio. Cresce, em paralelo, um ecossistema de startups de impacto lideradas por fundadores que já não separam retorno financeiro de transformação social.

Vale o contraponto para não idealizar: entre os family offices brasileiros, o apetite ESG ainda é tímido. Levantamento da Sitawi Finanças do Bem apontou que apenas 19% dos gestores de grandes fortunas usam critérios ESG na alocação, embora a maioria já conheça o tema. A guinada de propósito, no Brasil, é mais promessa geracional do que prática consolidada, o que abre, aliás, espaço editorial e político para discutir o que virá.

As teses defendem um capitalismo menos predatório

É nesse ponto que a transferência de riqueza cruza com um debate maior sobre o próprio capitalismo, onde a conexão com o perfil dos futuros milionários não é retórica. Se o capital passará a mãos mais jovens, femininas e sensíveis, a pergunta sobre que economia queremos financiar deixa de ser abstrata.

Quatro correntes ajudam a mapear o terreno.

·      A Economia Donut, da economista de Oxford Kate Raworth, propõe substituir o PIB perpetuamente crescente por um espaço seguro entre um piso social (saúde, moradia, educação, renda) e um teto ecológico; para ela, a desigualdade não é uma fatalidade econômica, mas “uma falha de projeto” que pode ser redesenhada.

·      O capitalismo de stakeholders, popularizado no Fórum Econômico Mundial, pede que a empresa responda não só a acionistas, mas a trabalhadores, comunidades e meio ambiente, associando prosperidade ao combate à pobreza e à desigualdade.

·      A economia solidária, formulada no Brasil por especialistas como Paul Singer, defende que cabe ao Estado impedir que o jogo de mercado cristalize vencedores e perdedores, ampliando empreendimentos que não visam apenas ao lucro. E há a crítica moral de fundo religioso: na encíclica Laudato Si’, o Papa Francisco chamou de “economia que mata” o sistema movido pela acumulação cega, associando a defesa dos pobres à defesa da natureza.

O fio comum entre elas é a recusa de que riqueza deva servir apenas a mais riqueza. E a novidade sociológica é que, pela primeira vez, os detentores emergentes do capital podem ter afinidade nativa com essas teses, não por conversão, mas por formação. Um herdeiro millennial que investe via aplicativo, acompanha índices de sustentabilidade e enxerga startups de impacto como o novo normal opera num ecossistema que os boomers raramente dominaram.

O que isso significa para quem produz conteúdo, aconselha ou legisla

Para gestores de patrimônio, a lição de Paulo Donovan da UBS é curta e grossa: o novo cliente pede mais liquidez. Investidores LGBTQ+ ainda enfrentam maior risco ocupacional: 47% relataram discriminação no trabalho, segundo o Williams Institute/UCLA em 2024) e planejamento sucessório sensível a jurisdições onde uniões e direitos parentais não são reconhecidos. Para o Brasil, o recado é duplo. Primeiro, a transferência chegará e encontrará um país mais concentrado e menos preparado juridicamente. O capital que está em disputa pode aprofundar a desigualdade ou financiar um novo modelo de distribuição de renda. A conferir.

A grande transferência de riqueza, em realidade, é menos uma notícia sobre riqueza e mais uma pergunta sobre valores. Quem herda a fortuna também herda o poder de decidir para que serve o dinheiro. E, se as novas gerações levarem a sério as teses que hoje circulam timidamente, talvez a próxima geração de milionários seja lembrada não pelo que acumulou, mas pelo que distribuiu.

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