ENVELHECER NA AMÉRICA
Ricardo Mucci – Board Advisor | Expert em Longevidade | Economia Criativa |Conselheiro da Gazeta Mercantil | ABRACS | Rádio Band Santos
Envelhecer custa caro em qualquer lugar do mundo. Reportagem recente do portal americano Money Wise ajuda a colocar números nessa afirmação, mesmo tratando-se do país mais rico do planeta: os Estados Unidos. O texto parte de um dado revelador: segundo pesquisa da Northwestern Mutual, os americanos acreditam que precisam de US$ 1,260.000 guardados para se aposentar com conforto. É o chamado “número mágico”, a meta psicológica que separa, na cabeça de cada um, a velhice tranquila da velhice apertada.
O problema é que a distância entre essa meta e a realidade é imensa. Baseado em dados do Federal Reserve, o banco central americano, os lares chefiados por idosos entre 65 e 69 anos estão divididos em seis faixas de patrimônio. No topo da pirâmide, o 1% mais rico tem patrimônio líquido acima de US$ 20,000.000, um universo à parte, de quem se preocupa mais com planejamento sucessório do que com orçamento doméstico.
Descendo um degrau, estão os aposentados afluentes, com mais US$ 2,900.000: executivos, advogados, donos de empresas, acostumados a um padrão de vida elevado. Logo abaixo está a chamada classe média alta, entre US$ 1,000.000 e quase US$ 3,000.000, faixa em que se insere justamente naquele “número mágico” que os americanos sonham alcançar.
A partir daí, a régua desce rápido. A classe média consolidada vai de US$ 394,000 a US$ 1,160.000, uma faixa que garante alguma tranquilidade, mas exige cuidado, especialmente para quem tem parte do patrimônio presa em ativos pouco líquidos, como a própria casa. Já a classe média baixa começa em US$ 69,500, patamar em que o orçamento aperta e os cortes se tornam rotina.
Na base da pirâmide estão os idosos financeiramente vulneráveis: um quarto dos aposentados americanos entre 65 e 69 anos tem menos de US$ 69,500 de patrimônio total, dependendo fortemente de programas públicos como o Social Security, equivalente ao INSS do Brasil. Ou seja: mesmo na maior economia do mundo, uma em cada quatro famílias que chegam à aposentadoria vivem no limite da segurança financeira.
Portanto, envelhecer na América não é tão simples como parece. Um país rico e desenvolvido, com poupança bruta da ordem de US$ 5,29 trilhões – atrás da China que tem impressionantes US$ 7,76 trilhões (42% do PIB) – que abriga um dos mercados financeiros mais sofisticados do planeta e, ainda assim, é incapaz de garantir, para a maioria da população, uma velhice financeiramente confortável sem décadas de planejamento rigoroso e disciplinado. O preço não está apenas no dinheiro que é preciso poupar. Está no tempo, na educação financeira, no acesso a bons empregos e renda compatível ao longo da vida, variáveis que a reportagem da Money Wise deixa claras ao mostrar como os aposentados da linha média e da base da pirâmide vivem realidades tão distintas do tal número mágico.
ENVELHECER NO BRASIL
Usei o panorama americano como referência porque no Brasil, não dispomos de uma pesquisa tão detalhada, feita com indicadores similares, sobre o patrimônio líquido de quem está chegando à aposentadoria. O que temos, isso sim, é um retrato igualmente revelador, menos atrelado à poupança individual, e mais sobre a pressão que o envelhecimento da população já exerce nas contas públicas.
Segundo o Orçamento da União para 2026, aprovado pelo Congresso Nacional, a Previdência Social será novamente o maior gasto do governo federal, superando R$ 1,100 trilhão. De acordo com a Instituição Fiscal Independente, vinculada ao Senado Federal, o valor representa cerca de 43% de toda a despesa primária da União. É simplesmente a maior fatia do orçamento brasileiro, maior que educação, saúde e segurança somadas.
O desafio brasileiro não se limita ao tamanho da conta. Diferente dos Estados Unidos, onde o problema é sobretudo de poupança individual insuficiente, aqui ele se soma a outros fatores. Uma delas é o etarismo no mercado de trabalho: pesquisas recentes mostram que 70% dos trabalhadores com cinquenta anos ou mais estavam desempregados em 2024, que 86% dos brasileiros acima de 60 anos já sofreram preconceito etário buscando emprego, e que a maioria das empresas brasileiras admite ter barreiras, explícitas ou veladas, para contratar profissionais mais velhos. O resultado é que milhões de idosos seguem trabalhando na informalidade, sem a rede de proteção que as políticas públicas deveriam oferecer.
Outra camada é a desigualdade regional. Dados do IBGE mostram que a renda média per capita no Norte e no Nordeste continua bem inferior à do Sul e do Sudeste, e que é justamente nessas regiões mais pobres que a dependência de programas sociais do governo é maior entre a população idosa. Ou seja: envelhecer em Manaus, Belém ou no interior nordestino é uma experiência financeira muito diferente de envelhecer em São Paulo ou Porto Alegre, uma nuance que nenhum “número mágico” nacional consegue capturar.
Comparar as duas realidades não é buscar qual país sofre mais. É reconhecer que o desafio de envelhecer com segurança financeira e qualidade de vida é, hoje, praticamente universal, mas se manifesta de formas diferentes. Nos Estados Unidos, o problema aparece na ponta do indivíduo: falta poupança, falta planejamento, e o mercado de capitais, por mais sofisticado que seja, não resolve sozinho essa equação para a maioria das famílias. No Brasil, o problema aparece também na ponta do Estado: um sistema previdenciário que consome quase metade do orçamento federal, um mercado de trabalho que expulsa o profissional mais velho bem antes da aposentadoria, e disparidades regionais que multiplicam a desigualdade entre os próprios idosos brasileiros.
No meio desse cenário preocupante, emergem ideias que merecem atenção. Uma delas é conhecida por Conta Convergência. Um grupo de gestores, empresários, cientistas políticos e advogados está trabalhando num projeto que obriga o governo a oferecer ações a todo brasileiro desde o nascimento até os 18 anos. A ideia tem sido apresentada aos candidatos à presidência de vários partidos. A proposta é abrir uma conta de investimento de R$ 1,000 em nome do recém-nascido, seguida de aplicações anuais decrescentes até os 18 anos. Ao todo, os aportes somariam R$ 9,500, convertidos em ações.
A iniciativa é liderada por Luis Felipe Amaral, CEO e chefe de investimentos da gestora Drýs Capital, antiga Equitas, e conta com o apoio do Convergência Brasil. Entre os nomes que apoiam o projeto, estão Jorge Gerdau, presidente do conselho do Movimento Brasil Competitivo; Jayme Garfinkel, acionista controlador da Porto Seguro; Fabio Barbosa, ex-presidente do Santander, e Cassio Casseb, ex-presidente do Banco do Brasil.
Independente da proposta se concretizar, precisamos de opções criativas para oferecer à população, já que após o nascimento, a única certeza é que vamos envelhecer. Uma aposentadoria digna depende muito da segurança financeira construída ao longo da vida. O Brasil é um país que poupa pouco, por razões diversas. O percentual varia de 16% a 18% do PIB, abaixo da média mundial que é de 22%. Portanto, o caminho ainda é longo e complexo, sem horizonte visível a médio e longo prazos.
Fica a reflexão para quem, como eu, se dedica a estudar os impactos da longevidade: viver mais é uma conquista extraordinária. Mas viver mais tempo com segurança financeira e dignidade continua sendo, tanto lá quanto aqui, um dos maiores desafios do nosso século e a conta, de um jeito ou de outro, sempre chega para todos nós. Quanto mais atentos e conscientes estivermos dessa realidade hoje, melhor será a qualidade de vida no futuro.
