Opinião: O Brasil brasileiro

Existe uma tentação confortável de traduzir o Brasil pelos atalhos que outros países inventaram para entender a si mesmos. Baby Boomers, Millennials, Geração Z, Geração X, Geração Alpha. Categorias criadas nos Estados Unidos, a partir da história americana, exportadas para o mundo como se a experiência humana fosse universal e replicável. Felipe Nunes, cientista político e fundador da Quaest, decidiu recusar esse atalho. E o resultado é um dos exercícios mais honestos e criativos de autoconhecimento nacional que a pesquisa brasileira já produziu.

O livro parte de uma base sólida: cerca de 10 mil entrevistas realizadas em todo o país, construindo o que o autor chama de um mapa do Brasil contemporâneo. Não o brasileiro idealizado de calendário cívico, nem o estereótipo folclórico consumidor no exterior. O brasileiro real, diverso, contraditório, em rápida transformação e, acima de tudo, moldado por uma história que é exclusivamente nossa e que tem na multiculturalidade um dos fatores que nos diferenciam resto do mundo.

A inovação central da pesquisa é a criação de uma nomenclatura geracional ancorada nos marcos históricos do Brasil e não importados. Quatro gerações, quatro momentos decisivos, quatro formas distintas de ver o mundo e de se relacionar com ele.

A geração Bossa Nova, formada entre 1945 e 1964, nasce no Brasil do otimismo desenvolvimentista. É a era de Juscelino Kubitschek, de Brasília sendo erguida do cerrado, da promessa de que cinquenta anos de progresso caberiam em cinco. Quem foi formado nesse período carrega uma relação particular com a ideia de construção, de nação em movimento, de futuro como projeto coletivo. Não por acaso, a bossa nova como expressão musical sintetizou exatamente isso: sofisticação, leveza e uma confiança genuína no amanhã.

O DNA criativo que essa geração expressou nos anos cinquenta não desapareceu. Ele se transformou, se fragmentou, se recombinou. E está presente nas gerações que o livro mapeia, mesmo que não esteja evidente que elas se reconhecem entre si.

A geração Ordem e Progresso, entre 1965 e 1984, cresceu sob o regime militar. Seu vocabulário emocional foi construído em torno de disciplina, autoridade e estabilidade. Não necessariamente como imposição vivida conscientemente, mas como atmosfera cultural que moldou valores, relações com instituições e percepções sobre o papel do Estado e da família. É uma geração que sabe o preço da ordem porque foi formada numa época em que ela era a narrativa dominante.

A geração da Redemocratização, entre 1985 e 1999, é talvez a mais marcada pela contradição. Chegou à vida consciente num país que estava se reinventando: inflação galopante, planos econômicos que se sucediam, instituições sendo reconstruídas do zero. Crescer nesse ambiente produziu uma geração com alta tolerância à ambiguidade, desconfiança estrutural nas promessas do poder e uma capacidade de adaptação que é, ao mesmo tempo, virtude e cicatriz.

A geração .com, formada entre 2000 e 2009, é a primeira geração genuinamente digital do país. Cresceu com internet como infraestrutura, não como novidade. Sua lógica de comportamento, consumo e identidade já não obedece às mesmas regras das anteriores. Para essa geração, a fronteira entre o físico e o digital nunca foi uma fronteira de verdade. É simplesmente o mundo.

O que torna a proposta do livro tão relevante não é apenas a elegância intelectual da nomenclatura. É o que ela revela sobre o método. Nunes recusa a preguiça analítica de importar modelos prontos e propõe algo mais difícil e mais honesto: entender o Brasil a partir do Brasil. A história brasileira como chave de leitura do comportamento brasileiro. Uma ideia que parece óbvia e que, curiosamente, é rara.

O retrato que emerge da pesquisa revelou um país conservador. Constatação que fortalece dicotomias ideológicas, amplifica preconceitos, desafia empresas na conquista de consumidores e candidatos na captura de votos dos eleitores.  Curiosamente, o conservadorismo se dissipa quando o tema é finanças. É um dos raros contextos em que os homens aceitam e valorizam o protagonismo feminino. A par das descobertas surpreendentes, a pesquisa revelou também um país que se move em direção ao futuro, se reinventa e produz novas sínteses culturais que dão identidade única a cada geração.

Conhecer o Brasil real não resolve os conflitos, mas aponta para necessidades que antecedem a qualquer solução: o diálogo, a escuta e o respeito pelo outro. Práticas conhecidas e desvalorizadas, que precisam ser resgatadas urgentemente para o bem do país e das futuras gerações.

Fonte: Ricardo Mucci

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