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JUNTOS SOMOS MAIS FORTES

Ricardo Mucci – Board Advisor | Expert em Longevidade e Economia Criativa | Nexialista Acidental | Certificação Board Academy | Advisor da Gazeta Mercantil Digital

O Brasil é e continuará sendo uma potência agrícola. Mas essa força, que hoje nos sustenta, precisa de aliados, sintonizados com as oportunidades do século 21.

Num mundo em que inovação deixou de ser diferencial para se tornar condição de sobrevivência, uma economia baseada majoritariamente em commodities não é sustentável no longo prazo. Exportamos volume. Importamos valor.

A conta não fecha. Essa equação — cedo ou tarde — cobra seu preço.

Ao mesmo tempo, assistimos a um processo silencioso e contínuo de desindustrialização. Produzir no Brasil tornou-se, em muitos casos, mais caro do que importar. O resultado é previsível: perda de competitividade, redução da complexidade econômica e dependência crescente de ciclos externos.

Tentativas de reversão existem. Em janeiro de 2024, o governo lançou o programa Nova Indústria Brasil (NIB), com a proposta de impulsionar a neoindustrialização, combinando sustentabilidade, inovação e transformação digital, com previsão de R$ 300 bilhões em financiamentos até 2026.

O BNDES é o principal agente financeiro do NIB. O apetite do mercado reflete o interesse nessa linha de crédito: as consultas ao banco dispararam 221% no triênio 2023–2025, enquanto as aprovações voltadas especificamente para a indústria saltaram 215% na comparação com 2022. Porém, as evidências de impacto estrutural são tênues, no que se refere a modernização de produtos e processos.

E o motivo é conhecido: não está claro se estamos diante de uma política de Estado ou de mais um programa de governo, com risco de ser canibalizado por um eventual opositor que chega ao poder. Em ano eleitoral, o foco se desloca e o futuro do país costuma perder espaço para o embate político-ideológico pontual.

O mundo, porém, não espera.

E aqui entra uma pergunta estratégica que o Brasil ainda não fez com a devida seriedade: onde estão os melhores cérebros do mundo — e o que podemos fazer para atraí-los?

Os Estados Unidos responderam essa pergunta há décadas. E transformaram a resposta em política pública.

Logo após a Segunda Guerra Mundial, o país decidiu encurtar o caminho da inovação. Em vez de esperar que o conhecimento fosse desenvolvido internamente, optou por importar talentos. A Operation Paperclip, em 1945, levou centenas de cientistas europeus para os EUA, acelerando avanços em áreas críticas como a engenharia aeroespacial.

Com o tempo, essa estratégia foi institucionalizada.

A Lei de Imigração de 1965 priorizou profissionais qualificados. Nos anos 1990, surgiram instrumentos ainda mais sofisticados, como o visto H-1B, voltado a especialistas em áreas como tecnologia, engenharia e matemática.

A lógica é simples: na falta de talento, importa-se. O resultado é visível e mensurável.

Hoje, uma parcela relevante da liderança global em tecnologia é formada por imigrantes ou filhos de imigrantes. Sergey Brin (Google), Elon Musk (Tesla/SpaceX), Jensen Huang (Nvidia), Satya Nadella (Microsoft), entre outros.

No universo dos talentos que migraram para os Estados Unidos, um país se destacou de forma contundente: a Índia. O país forma centenas de milhares de engenheiros por ano, muitos deles em instituições de excelência como os IITs – Institutos Indianos de Tecnologia (IITs): uma rede de 23 universidades públicas de elite, focadas em engenharia, tecnologia e pesquisa científica. Diversos desses profissionais passaram a ocupar posições-chave no ecossistema global de tecnologia.

Em 2024, cerca de 283 mil indianos receberam o visto H-1B, aproximadamente 71% de todas as autorizações concedidas.

Não é coincidência. É estratégia que acelera a performance do país.

Hoje, executivos de origem indiana lideram algumas das empresas mais poderosas do mundo: Google, Microsoft, IBM, Palo Alto Networks, entre outras.

Isso revela uma verdade central do século XXI: talento é um ativo insubstituível, mas é também compartilhável.

Países que entendem isso constroem vantagens competitivas duradouras. Países que ignoram ficam na estrada.

E o Brasil? O Brasil tem um déficit enorme de engenheiros e, somado a isso tem uma deficiência estrutural no aprendizado da matemática. Dados do PISA 2022 indicam que cerca de 73% dos estudantes brasileiros de 15 anos não atingem o nível mínimo de proficiência na matéria. É fato que o país forma talentos, mas os melhores migram. Não por opção, mas por falta de estímulo. É urgente inverter essa lógica, para proteger os cérebros privilegiados e, complementarmente, se abrir para o mundo, já que a multiculturalidade é um de nossos diferenciais como nação.

A recente aproximação entre Brasil e Índia, formalizada na visita do presidente Luiz Inácio “Lula” da Silva, abre uma janela concreta de oportunidade e fortalece uma relação pré-existente através do BRICs. Os acordos firmados, envolvendo tecnologia, inteligência artificial, fármacos, minerais críticos e cooperação industrial, mostram que existe alinhamento estratégico.

O próximo passo é fundamental.

O Brasil poderia — e deveria — criar um programa estruturado de atração de talentos qualificados, especialmente nas áreas de tecnologia, engenharia e inovação, vinculado a EMBRAPII – Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial, por exemplo, que tem a missão de desenvolver a indústria nacional, tornando-a moderna e competitiva.

Temos instrumentos legais para isso, como a autorização de residência para profissionais altamente qualificados, mas não temos escala, nem estratégia. O que falta não é legislação. É ação prática.

Um programa nacional de atração de cérebros — com foco em talentos internacionais — poderia acelerar significativamente nosso desenvolvimento tecnológico e, também reduzir o gap de inovação, além de gerar massa crítica para transformar ilhas de excelência em ecossistemas robustos, vitais para inserir o nosso parque industrial no ecossistema das potências econômicas do século 21.

E mais importante: poderia potencializar algo que o Brasil já tem de forma abundante: a criatividade. Basta citar exemplos como EMBRAPA, EMBRAER, PIX, Voto Eletrônico. Inovações desenvolvidas localmente que chamaram a atenção do mundo. O momento, porém, é outro. É preciso acelerar processos para garantir um lugar no futuro, onde a colaboração se mostra mais eficaz do que a proteção. A Lei da Informática de 1984 confirmou a ineficiência de medidas restritivas, que só fizeram atrasar o desenvolvimento tecnológico do país.

Talento técnico somado a criatividade gera inovação. E inovação gera competitividade.

O Brasil não precisa escolher entre ser uma potência agrícola ou tecnológica. Mas precisa decidir se quer continuar sendo apenas um fornecedor de insumos ou se deseja se tornar um protagonista na economia do conhecimento. A criação de um Programa Nacional de Atração de Talentos é uma proposta na caixinha de sugestões, que poderia ser muito útil na aceleração da inovação, para nos tornar mais competitivos não apenas em commodities, mas principalmente na oferta de produtos e serviços de valor agregado. Criatividade não nos falta.

Essa é uma decisão de Estado. Porque, no mundo atual, não vence quem produz mais. Vence quem é mais ágil e assertivo. Se não conseguimos acelerar a produção de conhecimento internamente, talvez seja hora de fazer o que as grandes potências fizeram: importar inteligência de forma estratégica e estruturada.

O Brasil ainda tem tempo. Pode utilizar a vantagem competitiva de integrar o BRICs, que reúne países com elevados indicadores de inovação, como China e Índia. Ambos são concorrentes em diversos setores de atividade econômica, mas podem se converter em parceiros em inúmeras outras. Uma delas é proposta nesse artigo.

Juntos somos mais fortes.

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