A guerra de Maricarmen
Ricarso Mucci – Board Advisor | Expert em Longevidade | Economia Criativa |Conselheiro da Gazeta Mercantil | ABRACS | Rádio Band Santos |
Maricarmen Abascal tinha 87 anos, vivia numa cadeira de rodas e morava havia quase sete décadas no mesmo apartamento, no bairro de Ibiza, em Madri. Foi ali que viu o pai e a mãe morrerem, ali guardava suas fotografias em preto e branco, suas porcelanas, a mesa de chá com os objetos e lembranças de uma vida. No dia 23 de setembro de 2026, foi retirada de casa por ordem judicial. O motivo não foi dívida, porque ela nunca atrasou um aluguel sequer. O motivo foi que um fundo de investimento comprou – bem barato – o imóvel em que ela morava, justamente porque ela ainda o habitava, e queria a casa vazia para extrair um valor que a presença de uma velha senhora impedia. Maricarmen morreu no último dia 7 de outubro, duas semanas depois do despejo, sem ter conseguido voltar para o lugar onde sonhava terminar a vida.
Antes de se converter em uma triste história ou de virar notícia, há um ato de violência explícita nessa ação. Exausta e triste, ela pediu que não a deixasse morrer em silêncio. “Lutem, defendam o que é de vocês”, repetiu aos que se juntaram diante de sua porta para apoiá-la. Como não se trata de um caso isolado, importante refletir sobre esse fato . Quem estuda a longevidade reconhece que, o que aconteceu com Maricarmen, não é um acidente, mas um sintoma. O sintoma de uma época que aprendeu a tratar a velhice como problema e a moradia como mercadoria.
A fragilidade do idoso
O caso dela não é isolado nem exclusivo da Espanha. É o ponto de encontro de duas forças que se alimentam, e que precisa ser exposta publicamente sempre que ocorre uma violência contra o idoso. A primeira é a monetização da moradia. A segunda é o preconceito contra os mais velhos. Separadas, já fazem estrago. Juntas, produzem a desumanidade que o despejo de Maricarmen escancarou para o mundo.
Comecemos pela primeira. Há algo de perverso em transformar a casa, que é abrigo, memória e identidade, em simples ativo financeiro. A Relatora Especial das Nações Unidas para o direito à moradia, Leilani Farha, cunhou a frase que resume a denúncia: a moradia é um direito humano, não uma mercadoria. Em 2019, ela e o especialista Surya Deva escreveram formalmente a vários governos, entre eles o da Espanha, alertando que fundos de investimento globais estavam comprando imóveis populares, elevando os aluguéis e empurrando para fora os inquilinos de menor renda. Citaram a Blackstone, hoje uma das maiores proprietárias de imóveis do planeta, como exemplo de quem passou a tratar a habitação acessível como um bem “subvalorizado”. Subvalorizado, na lógica fria, quer dizer ocupado por gente que paga pouco. Gente como Maricarmen e milhões de outros idosos em todo mundo.
E aqui está o detalhe que torna os velhos o alvo preferencial dessa engrenagem. Um apartamento ocupado por um idoso com contrato antigo, protegido por regras de aluguel de outra época, vale pouco para o investidor enquanto ele estiver lá, e vale muito no dia em que estiver vazio. O morador velho não é cliente, é o obstáculo entre o imóvel e o seu preço de mercado. Toda a pressão, os quatro despejos que Maricarmen enfrentou, as propostas, o desgaste judicial de sete anos, são parte de uma estratégia econômica precisa: vencer pelo cansaço quem o tempo já cansou. É a crueldade disfarçada de contrato.
O Japão e o kodokushi
O mais revelador é que essa mesma lógica aparece, com outro sotaque, do outro lado do mundo. No Japão, que envelhece mais rápido do que qualquer país, muitos proprietários simplesmente se recusam a alugar para idosos. O medo tem nome, kodokushi, a morte solitária. Só no primeiro semestre de 2025, a Agência Nacional de Polícia do Japão registrou mais de 40 mil mortes de pessoas que morreram sozinhas em casa. Um imóvel onde alguém morreu e demorou a ser encontrado vira o que os japoneses chamam de propriedade estigmatizada, e pode perder metade do valor. Resultado, o velho é recusado antes mesmo de entrar, porque sua eventual morte desvaloriza o tijolo e o concreto. Na Espanha, expulsa-se o idoso para valorizar o imóvel. No Japão, nega-se o imóvel ao idoso para não desvalorizá-lo. O vetor é o mesmo, a vida que já rendeu o que tinha de render passa a ser classificada como risco para os investidores.
Os nômades americanos
Nos Estados Unidos, a escritora Jessica Bruder documentou uma terceira face da mesma doença no livro “Nomadland”, que virou filme premiado. Ela acompanhou americanos idosos que, sem aposentadoria suficiente e espremidos pelo custo da moradia, venderam ou perderam suas casas e passaram a viver em vans, cruzando o país atrás de trabalho temporário, onde estivesse disponível. Gente de 65, 70 anos, dormindo em estacionamentos, com o corpo dolorido, fazendo a economia girar e sendo descartada por ela. A moradia digna, que deveria ser o prêmio de uma vida de trabalho, tornou-se um luxo que muitos velhos nem sonham.
As leis, ora as leis…
Reparem na relação entre os três cenários. Em todos, existe lei. A Espanha tem proteção ao inquilino, o Japão tem regras de transparência, os Estados Unidos têm legislação contra a discriminação por idade. E em todos a lei se mostrou frágil diante do poder econômico e da indiferença cultural. As normas existem no papel, mas não são cumpridas com a energia que protegeria o mais fraco. Enquanto isso, empresas que fomentam o preconceito etário seguem sem a menor sensibilidade para enxergar a pessoa por trás da planilha. Não há vilania explícita, há algo pior, a naturalidade. A velha senhora virou uma linha de custo, e remover a linha de custo é simples sinal de boa gestão.
Por trás de tudo, o preconceito
É nesse ponto que o economista e o humanista precisam falar a mesma língua. A Organização Mundial da Saúde, em seu relatório global sobre o etarismo, de 2021, estimou que uma em cada duas pessoas no mundo nutre atitudes preconceituosas contra os mais velhos. Esse preconceito não é só falta de educação, ele tem consequências materiais. Decide quem é despejado, quem é recusado como inquilino, quem é tratado como descartável. O etarismo é o único preconceito dirigido contra a nossa própria versão futura, e talvez por isso o toleremos com tanta leviandade. Rimos do velho lento, torcemos o nariz para o idoso que atrapalha o fluxo do mercado, e ensaiamos, sem perceber, o destino que um dia será o nosso.
Há uma dívida aqui que nenhuma contabilidade registra. Maricarmen trabalhou 34 anos como secretária, contribuiu, pagou suas contas, sustentou com seu trabalho uma parte da engrenagem que no fim a cuspiu para fora. A geração dela ergueu o país que hoje a considera um estorvo. Uma sociedade que aceita despejar uma mulher de 87 anos da casa onde viveu setenta, para que um fundo melhore seu rendimento, não tem um problema de moradia apenas. Tem um problema moral. Está dizendo, com todas as letras, que a vida de alguém vale menos quando já não produz.
Não tenho uma visão romântica da velhice e nem pretendo demonizar a economia. Mercados são necessários, o investimento imobiliário tem seu lugar, e nem todo proprietário é algoz. O que incomoda é a ausência de limites, a ideia de que tudo, até o quarto onde uma pessoa quer morrer, está à venda e sujeito à lógica da melhor oferta. Existe uma fronteira que uma civilização decente não atravessa, e o despejo de uma idosa em cadeira de rodas, que nunca deveu nada, está muito além dela.
O que fazer não é mistério, é vontade. Cumprir as leis que já existem, em vez de deixá-las na estante como enfeite. Reforçar a proteção do idoso de baixa renda contra esse tipo de agressão, tratando a moradia da pessoa como deve ser tratada : uma questão de dignidade e de saúde pública, e não de contrato ou de especulação. Cobrar das empresas, sobretudo das grandes incorporadoras, uma responsabilidade que a própria ONU já lhes atribuiu. E, no plano da cultura, combater o etarismo com a mesma seriedade com que combatemos outros preconceitos, porque é ele que autoriza, no silêncio da consciência coletiva, que o velho seja o primeiro a ser sacrificado.
E o Brasil, onde está nessa história?
No papel, a legislação brasileira é das mais generosas do mundo. A Constituição Federal de 1988 inscreve a moradia entre os direitos sociais, no artigo 6, e, no artigo 230, determina que a família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, defendendo sua dignidade e seu bem-estar, com a ressalva expressa, no parágrafo primeiro, de que esse amparo se dê preferencialmente no próprio lar. O Estatuto do Idoso, a Lei número 10.741, de 2003, hoje chamado Estatuto da Pessoa Idosa após a Lei número 14.423, de 2022, dedica um capítulo inteiro à habitação. Garante ao idoso o direito a moradia digna, assegura prioridade na aquisição de imóvel e, por força da Lei número 12.418, de 2011, obriga os programas habitacionais públicos ou subsidiados a reservar pelo menos 3% das unidades para atender à população idosa. Na letra da lei, o que faltou a Maricarmen na Espanha, uma proteção firme contra a perda do teto na velhice, o brasileiro teria de sobra. O problema, como quase sempre entre nós, mora no abismo entre a lei e a realidade. O país acumula um déficit de milhões de moradias, e boa parte dos idosos sobrevive com um salário mínimo, sem reserva, muitas vezes pagando aluguel informal, sem contrato e sem a estabilidade de que ela dispunha. Nossa lei promete o que o nosso dia a dia não cumpre. E uma lei que não se cumpre, por mais bela que seja, protege menos do que aparenta. O risco brasileiro não é ter leis piores, é ter leis excelentes que não saem do papel.
Maricarmen dizia que seu sonho era simples, morrer no mesmo quarto onde viu partirem seus pais. Era pouco, e foi negado. O lema que tomou as praças da Espanha, “Somos todos Maricarmen”, não é apenas um grito de solidariedade a uma senhora. É uma constatação demográfica. Todos nós, se tivermos a sorte de viver muito, seremos velhos um dia, e a forma como tratamos os idosos de agora é o ensaio geral do que nos espera amanhã. A pergunta que o caso dela deixa não é sobre a Espanha, é sobre a espécie de mundo que estamos construindo. Um mundo onde viver muito é um risco, ou um mundo onde a longevidade, essa conquista extraordinária da humanidade, seja finalmente acompanhada do direito mais elementar de todos, o de envelhecer e morrer em casa, com a dignidade de quem já fez a sua parte.
