A longevidade no Prêmio Nobel
RICARDO MUCCI – Board Advisor | Expert em Longevidade | Economia Criativa |Conselheiro da Gazeta Mercantil | ABRACS | Rádio Band Santos
Dedico meu trabalho a uma convicção simples, a de que o conhecimento não se esgota com o tempo, ele se amplifica. A experiência que uma pessoa reúne ao longo da vida, feita de estudo, de prática, de erros e acertos é matéria-prima de descobertas que ampliam a nossa compreensão do mundo. A edição de 2026 do Prêmio Nobel, que nasceu há 131 anos, é a evidência mais eloquente dessa qualidade: nove dos dez vencedores têm 60 anos ou mais.
Não é um acidente de percurso, e não é a primeira vez. Já havia observado esse padrão em anos anteriores, e ele se repete a cada edição. Entre os premiados deste ano, o mais jovem, o neurocientista Karl Deisseroth, tem 54 anos. O mais velho, o químico Henri Kagan, tem 95. Entre um e outro, uma galeria de pesquisadores, uma escritora, uma defensora dos direitos humanos e dois economistas, todos com trajetórias que atravessam décadas. Num mundo tão disposto a aposentar gente pela data de nascimento, essa fotografia merece ser vista com atenção.
O Nobel costuma coroar trabalhos cujo impacto levou anos, às vezes décadas, para amadurecer. Receber o prêmio aos 82 ou aos 95 anos não significa ter feito a descoberta original nessa idade. Significa algo talvez mais interessante, que o conhecimento tem um tempo próprio de maturação, e que comprovar uma tese por trinta ou quarenta anos, refinando, revisando e insistindo, é obra que só a experiência torna possível. Envelhecer não garante sabedoria, mas tampouco autoriza ninguém a presumir incompetência.
Os vencedores
Na Medicina, Peter Hegemann, de 71 anos, e Georg Nagel, de 73, encontraram em algas umas proteínas curiosas, que funcionam como minúsculas comportas acionadas pela luz. Ao lado de Karl Deisseroth, transformaram esse achado na optogenética, uma técnica que usa a luz para ligar e desligar células nervosas previamente preparadas para responder a ela. Na prática, é como instalar um interruptor dentro do cérebro. Com ele, cientistas estudam como os circuitos cerebrais participam da memória, das emoções e do comportamento. Uma descoberta que parecia distante da vida virou ferramenta para desvendar a nossa máquina de pensar.
Na Física, Francis Halzen, de 82 anos, foi premiado por abrir uma janela inédita para o Universo. Sob a sua liderança nasceu o IceCube, um observatório cravado no gelo da Antártida, capaz de capturar os neutrinos, partículas fantasmagóricas que atravessam quase tudo sem deixar rastro e que trazem notícias dos acontecimentos mais violentos do cosmos. Halzen apresentou a ideia em 1988. O instrumento só ficou pronto em 2011. Entre sonhar a máquina e fazê-la funcionar, foram mais de vinte anos de pesquisa, engenharia e cooperação internacional. Grandes avanços pedem esse fôlego, o de sustentar uma dúvida por muito mais tempo do que leva para se obter a resposta.
Na Química, Henri Kagan, aos 95 anos, e Kenso Soai, aos 76, foram reconhecidos por desvendar as versões espelhadas das moléculas. Pense nas suas mãos. A direita e a esquerda são parecidas, mas não se encaixam uma sobre a outra. Algo semelhante acontece com certas moléculas, cujas duas formas podem agir de maneiras bem diferentes dentro do corpo. Controlar qual delas se produz é decisivo para fabricar remédios seguros.
Na Literatura, a canadense Anne Carson, de 76 anos, foi laureada por uma obra que não cabe em gavetas. Poeta e ensaísta, ela aproxima a tradição clássica grega de formas de expressão absolutamente contemporâneas, misturando gêneros com uma liberdade rara. Aqui a contribuição não sai de um laboratório, mas do território da criatividade. É a prova de que o passado, quando associado à imaginação é ponto de partida para o novo.
Na Paz, a sul-africana Navi Pillay, de 85 anos, foi distinguida por uma vida dedicada aos direitos humanos e ao direito internacional. A sua trajetória atravessa o combate ao apartheid no próprio país e a atuação nas mais altas instâncias da justiça internacional. Ajudou a responsabilizar autores de atrocidades e a defender a dignidade das vítimas. Construir civilização, ensina o exemplo dela, também é transformar experiência em barreira contra a violência e a prepotência.
Na Economia, Robert Hall, de 83 anos, e Michael Woodford, de 71, completam o retrato. Hall mostrou o quanto as expectativas das pessoas sobre o futuro ajudam a explicar as suas decisões de consumo no presente. Woodford desenvolveu modelos que esclarecem como os juros e a própria comunicação dos bancos centrais afetam a economia. São ideias que orientam governos a enfrentar crises e a amenizar os solavancos da atividade econômica, assunto que toca o bolso de todos nós.
O paradoxo da idade
A idade não determina competência intelectual nem capacidade profissional. A tese de que o talento tem prazo de validade, tão repetida nos processos de demissão e de contratação, é desmentida por dez das mentes mais celebradas do planeta. E há um segundo ensinamento, que considero igualmente importante. Nenhuma dessas descobertas nasceu isolada. Por trás de cada nome premiado existem professores, estudantes, técnicos, colaboradores e um acervo de conhecimentos que se conectam na linha do tempo. A inovação tem autores reconhecidos, mas a sua construção é essencialmente coletiva.
É por isso que o etarismo me parece não apenas injusto, mas uma forma de ignorância, no sentido literal de desperdício de inteligência. Empresas e instituições jogam fora experiência preciosa quando transformam a idade em critério de exclusão. Dispensar alguém presumindo que já não aprende é trocar a avaliação pelo preconceito. E o erro vale nos dois sentidos. Desqualificar um jovem supondo que nada tem a ensinar é a mesma miopia, apenas invertida. Combater o etarismo exige reconhecer capacidades reais em todas as etapas da vida.
Pela primeira vez na história, cinco gerações convivem ao mesmo tempo. Dentro de qualquer geração há diferenças enormes de formação, de repertório e de visão de mundo. Mas, tomada como oportunidade, essa convivência é um patrimônio raro. O encontro produtivo começa no instante em que a escuta ocupa o lugar do rótulo. Não faz o menor sentido reservar aos jovens o monopólio da criatividade e aos mais velhos apenas o papel de guardiões da memória. Gente madura inova. Gente jovem reflete e pondera. Equipes diversas precisam de espaço para discordar, experimentar e aprender umas com as outras.
Essa cooperação, porém, precisa servir a algo maior do que a produtividade e a vaidade pessoal. Precisamos de educação de qualidade acessível a todos e de aprendizado ao longo da vida. Precisamos respeitar a natureza e preservar as condições que tornam possível a nossa existência, porque como profetizou o cacique Seattle em 1854 na célebre carta ao então presidente americano Franklin Pierce: tudo que acontece à Terra, acontece aos filhos da Terra. Precisamos de uma tecnologia que amplie a autonomia humana, e não que nos torne reféns dela. No fim das contas, o ser humano, com o seu habitat, é que deve ser o grande beneficiário do esforço coletivo. Deixar cinco gerações de talento de fora dessa construção, por puro preconceito, é uma ignorância incalculável.
Ninguém deveria precisar de um Nobel para merecer respeito ou uma oportunidade. O valor de uma pessoa não depende de feitos extraordinários nem de permanecer eternamente produtiva. Mas essas trajetórias, de 71, de 82, de 95 anos, funcionam como um espelho incômodo para essa pressa de julgar sem conhecer as partes envolvidas. A experiência tem o poder de transformar o tempo vivido em perguntas melhores e em soluções mais sólidas. E a convivência entre gerações pode multiplicar esse potencial, desde que haja disposição para repartir poder e conhecimento. O futuro será melhor se o esforço de todos beneficiar as pessoas e o planeta que habitamos. A data de nascimento é apenas um número que identifica quando chegamos ao mundo. O que fazemos com o tempo depois disso é que faz a diferença.
