Dias de Carnaval vs Dias de Corrupção
Enquanto as ruas do Brasil se inundam com o colorido dos confetes e o ritmo frenético dos trios elétricos, um silêncio ensurdecedor paira sobre o futuro institucional do país. O contraste é tão gritante quanto preocupante: de um lado, milhões de jovens demonstram uma capacidade de mobilização logística e energética invejável para ocupar o espaço público em nome do hedonismo; do outro, uma apatia profunda diante de escândalos que corroem os pilares da nossa República.
A juventude brasileira atual parece ter trocado o papel de protagonista das mudanças sociais pelo de espectador passivo de uma crise ética sem precedentes. No epicentro dessa inércia, dois episódios recentes deveriam, em qualquer democracia madura, despertar o clamor popular: a nebulosa quebra do Banco Master e os graves questionamentos sobre a independência do ministro Dias Toffoli.
O Labirinto das Instituições
A crise envolvendo o Banco Master não é apenas um problema de balanço financeiro; é um sintoma de um sistema onde as linhas entre o público e o privado se tornam perigosamente tênues. Quando somamos a isso a suspeição que recai sobre um ministro da Suprema Corte, o cenário deixa de ser uma “questão jurídica” para se tornar uma ferida aberta na confiança nacional.
O problema, contudo, ganha contornos dramáticos com o explícito “esprit de corps” que vem sendo demonstrado pelo Supremo Tribunal Federal. Em vez de uma autocrítica rigorosa ou de mecanismos transparentes de controle, o que se observa é uma blindagem mútua. A instituição parece esquecer um preceito fundamental da vida pública, imortalizado no dito popular: “À mulher de César não basta ser honesta, tem que parecer honesta”.
No caso do STF, a imparcialidade não deve ser apenas uma prática de gabinete, mas uma percepção pública inquestionável. Quando a imagem da corte se confunde com o corporativismo, a própria ideia de justiça é sequestrada.
Os Pilares da Resistência: Polícia Federal e Banco Central
Enquanto o cenário político se desenha entre a festa e a blindagem, o Brasil ainda respira através de instituições que preservam sua natureza técnica e investigativa. O papel da Polícia Federal (PF) e do Banco Central (BC) surge como o contraponto necessário ao desinteresse institucional.
A Polícia Federal e a Blindagem da Verdade: Agindo com independência, a PF tem sido o braço que impede que escândalos de corrupção sejam varridos para baixo do tapete. Sua atuação corajosa em investigar figuras de alto escalão e complexas engrenagens financeiras — como as que envolvem o setor bancário e o Judiciário — reafirma que ninguém está acima da lei, mesmo quando o “espírito de corpo” tenta ditar o contrário.
O Banco Central e a Ordem Econômica: Da mesma forma, a autonomia do Banco Central tem se provado um escudo vital. No caso do Banco Master, a atuação técnica do BC é o que garante que as regras de solvência e compliance sejam aplicadas sem o viés da conveniência política. É a aplicação nua e crua da lei de mercado e da vigilância monetária contra a tentativa de influências indevidas.
O Abismo da Consciência Política
É alarmante notar que a mesma geração que domina as redes sociais e dita tendências globais permaneça alheia ao fato de que as decisões tomadas em Brasília impactam o preço do pão, o valor da mensalidade escolar e a própria liberdade de expressão. A política brasileira tornou-se um “ruído de fundo” para o jovem que prefere o escapismo dos blocos carnavalescos à vigilância do poder.
Não se trata de condenar a festa — elemento vital da nossa cultura — mas de questionar o desequilíbrio das prioridades. O carnaval dura quatro dias; a corrupção e o aparelhamento das instituições deixam cicatrizes por décadas. Enquanto a energia juvenil for gasta apenas na folia, o Brasil continuará sendo o país onde as crises mais graves são enterradas sob uma camada de glitter e descaso.
A democracia exige mais do que presença física nas ruas; exige presença crítica. Se a juventude não despertar para a gravidade da crise institucional que nos cerca, os próximos carnavais poderão ocorrer em um país onde a única coisa que restou de livre foi a nossa capacidade de ignorar a própria decadência.
Luiz Barretto
