O machismo em “primeira-dama”
A expressão “primeira-dama” parece inocente, protocolar, mas carrega um conjunto de pressupostos de gênero e poder que vale a pena problematizar.
O termo traz consigo uma série de expectativas: a mulher elegante, que acompanha o presidente, que exerce uma função pública ligada “à caridade”, mas que não ocupa cargo oficial.
Antigamente, a primeira-dama era a mulher-sombra — aquela que ficava meio ao lado, meio atrás do presidente. Fazia figuração. Tivemos até uma “bela, recatada e do lar”, há alguns anos.
Já a ex-primeira-dama Ruth Cardoso não se encaixou nessa moldura. Era intelectual, antropóloga, professora da Universidade de São Paulo. Fugiu à regra. Assim como foge à regra a atual primeira-dama Janja, que também já tinha carreira antes de se casar com o presidente Lula.
Infelizmente, a “primeira-dama” é sempre julgado pelos machistas de plantão quando faz qualquer gesto, por menor que seja, que fuja do protocolo. É surreal como se cobra “postura” adequada de uma mulher. E eu nem preciso dizer que se fosse um “primeiro-cavalheiro”, essa cobrança não existiria.
É claro que o rito do papel de primeira-dama exige protocolos. Alguns podem ser quebrados? Talvez. Outros, por enquanto, não. Quem sabe mais adiante. É preciso lembrar que mudanças na sociedade podem e devem acontecer.
E vale nos conscientizarmos de que ser “mulher de alguém” não é adereço, não é profissão, não é mérito. O papel da mulher na sociedade é ser o que ela quiser ser: de Janja a Ruth Cardoso, o que importa é que sejam profissionais, pessoas, mães, filhas, amigas — e, sobretudo, mulheres que escolheram ser. Que nenhuma viva à sombra, como um belo adereço de um homem vestido de terno e faixa presidencial. Ser alguém é muito mais do que representar alguém que esteja no poder.
