O PREÇO DA VERDADE E DA MENTIRA
Ricardo Mucci – Board Advisor | Expert em Longevidade e Economia Criativa | Nexialista Acidental | Certificação Board Academy | Advisor da Gazeta Mercantil Digital
Yuval Harari, o historiador israelense que ficou famoso por explicar a humanidade para a própria humanidade, tem uma observação incômoda sobre o mundo em que vivemos: a verdade é mais cara que a ficção. Para provar algo verdadeiro é preciso tempo, pesquisa, viagens, livros, fontes confiáveis, análise criteriosa e tudo isso, de alguma forma, tem um preço. Para inventar algo, basta imaginação e intenção. A ficção não tem ônus de prova. A mentira não exige recibo.
Essa assimetria sempre existiu. O que mudou é a velocidade, a escala e a sofisticação com que a ficção pode hoje se disfarçar de realidade e a velocidade com que a aceitamos como verdade.
O Brasil e as Deepfakes
O Brasil é o país que mais se deparou com deepfakes no mundo: 80% dos brasileiros afirmam ter encontrado conteúdo sintético online, índice superior ao registrado nos Estados Unidos e no Reino Unido, que ficam em torno de 60%. Deepfakes são vídeos, imagens e áudios gerados ou manipulados por inteligência artificial com grau de realismo que até poucos anos atrás seria impossível. Até dois anos atrás, as pessoas achavam que conseguiam identificar deepfakes porque, nos vídeos, as pessoas apareciam com seis dedos ou com uma orelha faltando. Hoje esses sinais não existem mais. A tecnologia evoluiu. Nossa capacidade de desconfiar, não. E quem menos desconfia de conteúdo falso são pessoas idosas, que têm pouco ou nenhuma familiaridade com recursos tecnológicos sofisticados como IA.
Cerca de metade dos brasileiros acredita ser capaz de diferenciar conteúdo real de conteúdo fake. Na prática, apenas 20% alcançam níveis satisfatórios de acerto. Trinta e dois por cento tiveram desempenho equivalente ou inferior. Traduzindo: jogando uma moeda para o alto, você teria o mesmo resultado que a maioria das pessoas ao tentar identificar se um vídeo é falso. Pura adivinhação. E a parte mais perturbadora é que essa incapacidade não depende do nível de familiaridade com a tecnologia. Os usuários que são ativos na produção de conteúdo digital — um segmento de 7% da população — aumentam sua capacidade de identificar fakes em apenas 5%. Nem eles conseguem reconhecer o que veem.
O problema não é só técnico. É cultural. E tem a ver com a forma como estamos nos relacionando com o conhecimento na era da IA.
A inteligência artificial foi concebida como ferramenta de auxílio ao pensamento humano — uma linha de pesquisa sofisticada, uma aceleradora de raciocínio, uma organizadora de informação. Não foi projetada para substituir o julgamento humano, nem tem — nem deveria ter — a responsabilidade de provar a veracidade do que produz. O ônus da verdade sempre pertence ao autor humano. O problema é que, com a naturalidade com que se delega à IA a tarefa de pensar, escrever, argumentar e concluir, muita gente terceiriza junto a responsabilidade de verificar. A IA virou muleta intelectual. E muleta nada mais é do que um instrumento que te permite caminhar em alguma direção, não necessariamente a correta.
Os casos de deepfake no Brasil cresceram 308% entre 2024 e 2025, passando de 39 ocorrências documentadas para 159, com mais de três quartos desses conteúdos explorando a imagem ou a voz de pessoas conhecidas, principalmente lideranças políticas. Fraudes com deepfakes e identidades sintéticas cresceram 126% no país em 2025, e o Brasil concentra quase 39% de todos os deepfakes identificados na América Latina. Esses números não são abstratos. São golpes financeiros aplicados com rostos falsos de pessoas reais. São vídeos de políticos dizendo coisas que nunca disseram. São imagens íntimas fabricadas de pessoas que nunca fizeram nada daquilo. A SaferNet Brasil identificou 173 vítimas de deepfakes sexuais apenas em escolas de dez estados, em imagens criadas por IA sem o consentimento das pessoas retratadas.
O real e o fabricado
A ficção tem seu valor em determinados contextos. O imponderável é que nunca tivemos um nível tão elevado de verossimilhança com a realidade, nem um custo tão barato para produzir ficção ou mentir sobre pessoas e fatos.
Voltando a Harari: o que ele diagnostica é que vivemos uma crise de “incentivos epistêmicos”. Produzir verdade é trabalhoso e caro. Consumir mentira é imediato e gratuito. Em um ambiente onde o conteúdo se multiplica exponencialmente e a atenção humana é dispersa, a “mentira bem-feita vence a verdade mal comunicada”. A IA não criou o problema, mas o potencializou de forma dramática, ao zerar o custo de produção da ficção convincente e ao aumentar sua sofisticação a ponto de torná-la indistinguível do real.
A saída não é rejeitar a tecnologia. É resgatar o hábito de verificar. Especialistas apontam que uma das poucas ferramentas que temos como consumidores e eleitores – já que estamos em ano eleitoral – é verificar a procedência do conteúdo antes de confiar ou compartilhar. O cérebro é treinado para entender que onde há movimento, há realidade. Essa é exatamente a vulnerabilidade que os criadores de deepfakes exploram: se uma comunidade aceita certa versão dos fatos, os demais integrantes endossam e a aceitam como verdade.
A responsabilidade de distinguir o real do fabricado nunca deixou de ser humana. A IA pode auxiliar, mas não substituir o julgamento crítico de quem consome informação. Cada vez que compartilhamos sem verificar, cada vez que aceitamos como verdade o que apenas parece verdadeiro, estamos pagando, sem perceber, o custo mais alto dessa equação: o preço da nossa própria credibilidade como seres pensantes.
Antes de finalizar o artigo, não poderia deixar de comentar sobre o caráter camaleônico da mentira contemporânea. Ela vem travestida de corrupção, sonegação, desgovernança, intransparência, entre outras versões menos nobres. Quando isso acontece, mas a verdade é restabelecida, o prejuízo é enorme. Americanas, Ultrafarma, Banco Master, juízes, políticos são alguns dos exemplos recentes de que mentira tem perna curta, como dizia minha querida avó.
A verdade custa caro. Mas ao renunciar a ela, o prejuízo pode ser incalculável.
Fontes: Veriff — Deepfakes Report 2026 Brazil; Observatório Lupa — Panorama da Desinformação no Brasil 2025; Identity Fraud Report 2025-2026; SaferNet Brasil — Relatório Deepfakes Sexuais em Escolas (2026); Yuval Harari — palestras e entrevistas públicas sobre desinformação e inteligência artificial.
