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O voto decisivo do idoso

Ricardo Mucci – Board Advisor | Expert em Longevidade | Economia Criativa | Board Advisor | Gazeta Mercantil | ABRACS | Rádio Band Santos 

Há uma transformação real e silenciosa acontecendo no Brasil. A cada minuto que passa, o país ganha três pessoas 50+ e duas 60+. Parece pouco, mas multiplique isso por horas, dias, anos. Estamos diante da mais importante transição demográfica deste século, e ela está redesenhando não apenas nossas cidades e famílias, mas também o mapa eleitoral do país.

Segundo dados do instituto de pesquisas Nexus, o eleitorado 60+ cresceu impressionantes 74% entre 2010 e 2026. Enquanto isso, o eleitorado total avançou apenas 15% no mesmo período. Em números absolutos, passamos de 20,8 milhões de eleitores idosos em 2010 para 36,2 milhões em 2026. Uma verdadeira avalanche de experiência, memória e vontade de participar.

A representatividade conta a mesma história de forma ainda mais clara. Em 2010, os eleitores 60+ representavam 15,3% do total. Em 2026, serão 23,2%. Estamos falando de quase um quarto do eleitorado brasileiro. Eleitores com opinião formada, histórias para contar e, principalmente, com potencial para decidir o rumo de uma eleição.

O que torna esse cenário ainda mais fascinante é o contraste dentro da própria geração. Os eleitores entre 60 e 69 anos, com voto obrigatório, têm uma das menores taxas de abstenção do país: apenas 14,3% em 2022. Seu comparecimento às urnas supera 85%, superando até a média nacional. Já os eleitores com 70 anos ou mais, com voto facultativo, apresentam abstenção elevada, em torno de 59%. Mas quando decidem ir votar, são mais de 16 milhões de brasileiros, quase metade do colégio eleitoral 60+.

Geograficamente, o envelhecimento eleitoral é mais intenso no Sul e Sudeste. O Rio Grande do Sul lidera com 29,3% do eleitorado na faixa 60+, seguido pelo Rio de Janeiro com 28% e Minas Gerais com 26%. Já os estados do Norte possuem proporções bem menores, alguns com metade do percentual das regiões líderes. É um Brasil de duas velocidades, onde a experiência se concentra de formas distintas.

Apesar da relevância numérica e política crescente, a geração 60+ ainda enfrenta um paradoxo cruel. São, ao mesmo tempo, potencialmente decisivos nas urnas e invisíveis para o mercado e para as políticas públicas. O etarismo está presente em anúncios, vagas de empregos, programas de televisão e até o atendimento no comércio. Como se anos de contribuição e sabedoria pudessem ser descartados por uma data no RG.

Precisamos parar para refletir sobre o que estamos deixando escapar. Negligenciar quem tem 60+ é ignorar décadas de experiência profissional, de liderança comunitária, de história viva do país. É desperdiçar a chance de ouvir quem viu o Brasil mudar, quem construiu pontes, escolas e empresas, e quem hoje tem tempo, disposição e interesse para acompanhar de perto os rumos da nação.

As eleições de 2026 serão um marco. Pela primeira vez, mais de 36 milhões de eleitores 60+ estarão aptos a votar. Não é apenas um número. São pais, mães, avós, vizinhos, professores aposentados, trabalhadores que nunca pararam de produzir. Pessoas que, quando se sentem ouvidas e respeitadas, transformam sua alta taxa de comparecimento em poder de mudança real.

Valorizar o eleitorado mais velho não é uma questão de benevolência. É reconhecer um fato: eles estão aqui, são muitos, estão ativos e querem participar. Ignorá-los é ignorar o próprio futuro que, ironicamente, todos nós esperamos um dia alcançar. Que as campanhas, as empresas e as políticas públicas finalmente enxerguem o que os números anunciam há anos. A geração Bossa Nova – ou Boomers como são definidos nos Estados Unidos – não é o passado do Brasil. É parte fundamental do presente e, sem dúvida, será uma das protagonistas do futuro.

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