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Os Idiotas e o Passado

RICARDO MUCCI – Board Advisor | Expert em Longevidade | Economia Criativa |Conselheiro da Gazeta Mercantil | ABRACS | Rádio Band Santos 

Depois que passei a me dedicar ao estudo dos impactos da longevidade na vida das pessoas, me autobatizei de dino.com. Nativo da geração Bossa Nova, nascido em 1952, testemunhei todas as transformações sociais, científicas, comportamentais, filosóficas, econômicas e políticas das últimas décadas, e cheguei a uma constatação curiosa. Os meios de comunicação, principalmente o cinema, a literatura e a televisão, nos ensinaram mais sobre dinossauros do que sobre raças de cavalos ou de cachorros. Todo jovem aprendeu sobre a personalidade violenta do T-Rex, mas quase nada sabe sobre o Appaloosa e o Cane Corso. Há uma ironia nisso que serve de base para esta reflexão. Somos fascinados por gigantes que desapareceram por não terem conseguido se adaptar, e prestamos pouca atenção em quem vive e no que acontece ao nosso lado, aqui e agora. Como alerta o professor Mário Sérgio Cortella, aceitar é uma coisa e compreender é outra bem diferente. Compreender dá trabalho, exige reflexão e conhecimento. Aceitar sem compreender não exige nada, esforço zero.

Sobre esse ponto, resgato uma tese de Sigmund Freud, para quem o inconsciente humano é um caos, porque não funciona sob as regras da lógica racional nem da realidade. Em suas conferências sobre a estrutura da mente, Freud descreveu essa instância como uma espécie de caldeirão de impulsos em fervura, regido pelo princípio do prazer, onde não existem tempo, contradição, negação ou moralidade. A consequência disso é reveladora. Se uma mensagem ou uma tese consegue se conectar a esse ecossistema caótico, oferecendo a ele um sentido simples e um alívio imediato, a aceitação se torna quase automática, porque não passa pelo crivo da razão. É aí que mora boa parte da explicação para um fenômeno do nosso tempo. Muitas pessoas temem o futuro e preferem se refugiar nas teses do passado, mesmo sabendo que o tempo só avança para frente, sem botão de retorno. O conservadorismo que cresce no mundo inteiro pode ser lido, em parte, pela tese freudiana. Ela não vende o futuro, que é incerto e trabalhoso. Vende o conforto de um passado que parece seguro, mas já passou. Não volta mais.

Em países como o Brasil, surpreende que milhões de jovens abracem teses conservadoras, muitas delas defasadas dos desafios do século 21. O problema central, a meu ver, não é a existência do pensamento conservador, que é legítimo e tem tradição intelectual respeitável. O incômodo é a adesão sem exame, a escolha de aceitar em vez de compreender. E essa escolha tem terreno fértil. A tecnologia captura a atenção e encanta mais do que a reflexão, prática que a pedagogia moderna esquece de cultivar nos jovens. Quando o hábito de pensar se atrofia, a tese mais simples vence, não por ser a melhor, mas por ser a mais digestiva.

Soma-se a isso um fator econômico que não pode ser ignorado. Muitas religiões e ideologias vendem a prosperidade financeira como sonho ao alcance de todos, sem perceber, ou sem admitir, que prosperar não se resume a acumular bens, pois envolve também valores intangíveis como paz interior, qualidade de vida e sentido de pertencimento. Como observou o professor Carlos Melo, do Insper, no programa Roda Viva, da TV Cultura, os jovens que não enxergam um horizonte profissional e social próspero tendem a se agarrar às fórmulas que construíram a riqueza das gerações anteriores, a Baby Boomer e a Bossa Nova. O detalhe cruel é que essas fórmulas se tornaram inalcançáveis, porque hoje é muito mais complexo construir uma carreira ou um projeto de vida com garantia de segurança financeira. Diante da frustração, é mais cômodo aceitar um presente revestido de prazer e promessa, aquele a que Freud se referia, do que enfrentar um futuro incerto que exige esforço, estudo e paciência.

Essa tese se conecta a outra, muito instigante, do filósofo e escritor italiano Umberto Eco. Ao receber o título de doutor honoris causa pela Universidade de Turim, em 2015, Eco afirmou que as redes sociais deram o direito à palavra a legiões de imbecis que antes falavam apenas no bar, depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade, e que eram logo silenciados, mas que agora têm o mesmo direito à fala de um ganhador do Prêmio Nobel, cuja prioridade está muito distante de se tornar um influenciador nas redes sociais. Eco chamou o fenômeno de a invasão dos imbecis. É dessa ideia que tomo emprestado o título deste artigo, embora prefira a palavra idiota, por uma razão que explico mais adiante. Esses personagens informam a audiência de forma superficial, porque as teorias complexas exigem tempo e conhecimento, nos quais eles não investiram e nem estão dispostos a investir. Como explica o professor Leandro Karnal, muitos deles prosperam porque têm talento para se comunicar e para convencer a plateia de que suas teses são as melhores. A grande descoberta que fizeram foi perceber que essas teses ecoam e se multiplicam nas redes sociais, o que lhes permite contaminar muita gente e ampliar enormemente o próprio universo.

Antes da era digital, os idiotas tinham dificuldade para prosperar, porque faltavam palco e plateia. Falavam para pequenos grupos ou publicavam livros para poucos leitores. Mesmo assim, alguns prosperaram, e o exemplo mais trágico é Adolf Hitler. Numa Alemanha em frangalhos, com a autoestima no chão depois da Primeira Guerra, Hitler construiu um discurso de prosperidade e de redenção nacional, e milhões de pessoas aceitaram que ele tinha a fórmula infalível para tirar o país do caos. O resto é conhecido. O sucesso subiu à cabeça, ele decidiu impor suas teses pela força, subjugando outras nações, e o mundo pagou um preço alto até acordar para o risco em curso. A lição que a Alemanha tirou disso foi tão profunda que o país reconstruiu sua democracia cercada de salvaguardas contra o extremismo, sob o lema do nunca mais. O alerta permanece. Uma sociedade inteira pode entregar o poder a um projeto radical quando troca a compreensão pela aceitação. Mesmo depois da dura lição aprendida, as teses nazistas se mostram poderosas e estão ganhando adeptos em diversos em outros países. Mais uma demonstração de que para muitos, o passado alimenta o futuro.

É hora de explicar por que optei por idiota e não imbecil, como propôs Umberto Eco.  Na Grécia antiga, idiota, do grego idiotes, não era um insulto nem tinha relação com inteligência. Designava o cidadão comum que se ocupava apenas da própria vida privada e se afastava dos assuntos públicos e coletivos. Para os gregos, que viam a democracia como algo dependente da participação de todos, quem se recolhia à esfera particular e virava as costas para a vida da cidade era considerado negligente. Péricles, estadista da Grécia antiga, chegou a classificá-los como um sujeito inútil. Daí vem o alerta mais importante, atribuído a Platão, de que os que se recusam a participar da vida pública acabam governados por aqueles que menos desejariam. O idiota, no sentido original, não é apenas o tolo. É o que abdica de pensar e de participar. E olhar para o futuro pelo retrovisor, confortavelmente instalado no passado, é uma das formas mais sutis de abdicar da inteligência.

Para fechar o artigo, recorro de novo ao professor Cortella. O ser humano é, fisicamente, um dos animais mais frágeis da natureza. A pele é sensível, o cabelo cai, a visão, a audição e a mobilidade diminuem com o tempo, não voamos e adoecemos com frequência. Em compensação, a biologia nos deu uma qualidade que os outros bichos não têm, a inteligência, alimentada por um cérebro curioso, ativo e pensante. Quando abdicamos dela porque é mais cômodo e seguro, renunciamos justamente ao que temos de mais precioso, aquilo que nos distingue dos animais que só contam com o instinto. É uma renúncia que cobra um preço alto, individual e coletivamente.

Como profetizaram grandes mestres do pensamento, de tempos em tempos a humanidade precisa atravessar períodos difíceis, ora porque agredimos a natureza, ora porque os detentores do poder querem mais poder, ora porque não compreendemos que a vida não é uma linha reta e não vem com manual de instruções. Encerro com uma sábia reflexão do Dalai Lama, para quem devemos conviver com as pessoas que pensam diferente de nós, porque são elas que testam a nossa tolerância e a nossa paciência. Concordo, mas confesso que é desanimador medir quanto trabalho teremos pela frente para convencer os idiotas, no sentido grego e no sentido popular da palavra, a parar de olhar o futuro pelo retrovisor. Porque, quem dirige com os olhos voltados para o passado, mais cedo ou mais tarde, tromba com o futuro, que é a incerteza mais fascinante que temos pela frente.

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