Queda do açúcar e custos altos agravam crise da cana-de-açúcar
A crise nos canaviais preocupa: queda do açúcar e custos altos reduzem margens. Em Piracicaba, produtores avaliam cortar área plantada ou migrar para outras culturas. Orplana alerta para desinvestimento que ameaça futuras safras
Os canaviais atravessam um momento preocupante. A queda do preço do açúcar no mercado internacional, somada aos elevados custos de produção, gera incertezas sobre a rentabilidade das próximas safras.
Piracicaba, referência nacional na produção de cana, também sente os efeitos. Representantes do setor projetam que, diante da situação, produtores rurais podem reduzir a área plantada ou até mesmo migrar para outras culturas.
Segundo Arnaldo Bortoletto, vice-presidente da Coplacana, a entrada do etanol de milho no mercado – que deve responder por um terço do combustível disponível – afeta diretamente os negócios da cana. Além disso, os agricultores enfrentam custos elevados, pressionados pela política de juros altos do Copom e pelo aumento dos preços de fertilizantes e defensivos.
“Não há como manter a mesma área cultivada porque a margem de lucro está comprometida. Existe, sim, a possibilidade de parte da roça ser ocupada por culturas como amendoim e milho. São alternativas já testadas em algumas propriedades, mas dependem dos preços de momento. Talvez não compense mudar. Vamos acompanhar o setor para termos uma noção, em números reais, de como seremos afetados”, afirma.
Para Bortoletto, a reação do segmento depende de políticas efetivas do governo federal, como ampliar a participação do etanol na mistura com a gasolina e oferecer crédito mais acessível para viabilizar o plantio.
“Desinvestimento”
O alerta também é compartilhado pela Orplana (Organização das Associações de Produtores de Cana do Brasil), que reúne 35 entidades regionais e cerca de 12 mil produtores. Muitos já promovem ajustes nos orçamentos.
De acordo com o presidente-executivo da entidade, José Guilherme Nogueira, a perda de margem financeira tem levado à redução de investimentos.
“Estamos observando uma queda na receita líquida, o que provoca desinvestimento. Produtores cortam gastos e deixam de aplicar em insumos essenciais para o desenvolvimento da lavoura”, explica.
Embora reduza despesas no curto prazo, essa estratégia pode comprometer a produtividade das próximas safras. O dilema do produtor é escolher entre manter o nível tecnológico da lavoura ou preservar o caixa. O impacto vai além do campo e pode redefinir a dinâmica do setor sucroenergético.
A elevada produtividade em grandes produtores globais, como Brasil e Índia, somada à desaceleração do consumo em alguns mercados, levou os preços do açúcar a patamares próximos das mínimas dos últimos cinco anos, segundo a Orplana.
Enquanto isso, os custos agrícolas seguem pressionados por fertilizantes caros, combustíveis, mão de obra e logística.
Migração de culturas preocupa
A possível migração para outras culturas preocupa a indústria, já que reduz a disponibilidade de matéria-prima para moagem. O impacto deve aparecer de forma mais clara nos próximos ciclos, a partir de 2027/28.
A redução da cana processada afetará a produção de açúcar e etanol. No curto prazo, a safra 2026/27 não deve sofrer grandes alterações, já que o ciclo produtivo da cana é longo e as decisões atuais ainda não se refletem plenamente no campo.
Os números da safra atual seguem elevados. Dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) indicam que 600,4 milhões de toneladas de cana foram moídas até a segunda quinzena de dezembro, resultando em 40,2 milhões de toneladas de açúcar.
Fonte: Gazeta de Piracicaba
