Leão XIV, o Papa Digital

Ricardo Mucci – Board Advisor | Expert em Longevidade e Economia Criativa | Geração Bossa Nova | Advisor e Head de Conteúdo da Gazeta Mercantil

Existe uma instituição que atravessou o Império Romano, sobreviveu às Cruzadas, resistiu à Reforma Protestante, acompanhou a Revolução Industrial e chegou ao século XXI com 1,4 bilhão de membros. A Igreja Católica não é apenas uma organização religiosa. É uma das forças culturais, morais e políticas mais persistentes da história humana. Quando ela fala, muita gente ouve, inclusive quem não é católico.

Em 25 de maio de 2026, o Papa Leão XIV lançou sua primeira encíclica, documento mais importante que um papa pode produzir. Chamou-a de Magnifica Humanitas, que em latim significa “Magnífica Humanidade”. E o tema que escolheu para estrear não poderia ser mais contemporâneo: a inteligência artificial.

Não é por acaso que o pontífice escolheu exatamente o dia 25 de maio para a publicação. A data marca o 135º aniversário da Rerum Novarum, a encíclica histórica de Leão XIII sobre os direitos dos trabalhadores na Revolução Industrial. O paralelo é intencional e poderoso: se em 1891 a Igreja respondeu ao desafio ético das máquinas a vapor e das fábricas que transformaram o mundo do trabalho, em 2026 ela responde ao desafio das máquinas inteligentes que estão transformando tudo o mais.

O próprio papa escolheu seu nome em homenagem a Leão XIII. A mensagem implícita é clara: assim como a Igreja soube ler os sinais do seu tempo há 135 anos, ela precisa fazer o mesmo agora. E a Magnifica Humanitas é essa tentativa.

O documento tem 42.300 palavras e é a declaração mais abrangente já produzida pelo Vaticano sobre inteligência artificial. Está dividido em cinco capítulos e parte de uma premissa que o papa deixa explícita logo nas primeiras páginas: a tecnologia não é o inimigo. A tecnologia não é uma “força antagônica à humanidade”, nem é “inerentemente má”. Mas “a tecnologia nunca é neutra, porque assume as características de quem a projeta, financia, regula e usa”. O problema, portanto, não é a IA em si. É o que os seres humanos fazem com ela e quem tem o poder de decidir.

Para entender o coração da encíclica, basta prestar atenção nas duas imagens bíblicas que Leão XIV usa para enquadrar o debate. A Torre de Babel, símbolo da tecnologia desconectada de valores humanos e espirituais. E Neemias reconstruindo Jerusalém, representando o trabalho paciente orientado para o bem comum. A humanidade, diz o papa, está numa encruzilhada: ou construímos uma nova Torre de Babel baseada no orgulho técnico e no poder concentrado em poucos, ou construímos algo que sirva a todos.

Um dos argumentos mais originais da encíclica é o que chama de assimetria entre o poder técnico e a sabedoria moral. Em tradução livre: estamos criando ferramentas extraordinariamente poderosas numa velocidade que nossa capacidade ética de as governar simplesmente não acompanha. Os algoritmos evoluem em meses. As leis, os parlamentos, as consciências e as instituições reguladoras evoluem em décadas. Essa diferença de velocidade é, segundo Leão XIV, o verdadeiro risco do momento.

O documento reconhece preocupações conhecidas como insegurança no emprego, manipulação de informação, violações de privacidade, vieses ideológicos e armas autônomas. Mas identifica um perigo mais profundo: que os seres humanos comecem a se ver e a ver os outros como processáveis, otimizáveis, substituíveis. Não é a máquina que pensa por nós o maior risco. É pararmos de pensar por nós mesmos.

No campo do trabalho, a encíclica retoma as raízes históricas da Doutrina Social da Igreja. Leão XIV afirma que a tecnologia pode tornar a civilização “menos humana” e reduzir a dignidade humana, assim como o valor do trabalho, que ele argumenta ser inerente à busca de propósito e realização. Automatizar o trabalho sem garantir dignidade e oportunidade para quem fica para trás não é progresso. É a mesma injustiça do século XIX com uma nova roupagem tecnológica.

Sobre armas autônomas, o papa foi categórico e inovou ao superar categorias antigas. O documento condena os sistemas de armas autônomas, insistindo em que “nenhum algoritmo pode tornar a guerra moralmente aceitável”. As decisões que envolvem vida e morte, afirma o texto, devem sempre permanecer sob responsabilidade humana. Para isso, estabelece três exigências concretas: rastreabilidade das decisões, controle humano significativo sobre ações letais e regras internacionais capazes de frear a corrida armamentista tecnológica.

A encíclica também denuncia o que chama de “colonialismo digital” — a transformação de vidas humanas em dados exploráveis — e aponta o controle da informação como um dos desafios morais mais urgentes do nosso tempo. Alerta contra a concentração do poder tecnológico nas mãos de poucos atores privados globais, “mais influentes do que governos”, e exige uma governança democrática e distributiva dos benefícios da IA.

Uma das dimensões mais marcantes do documento é sua abertura genuína ao diálogo com o mundo não religioso. A apresentação da encíclica contou com a participação de Christopher Olah, cofundador da Anthropic , empresa criadora da IA Claude, que elogiou o papel do Vaticano como “crítico informado” e o início de “uma longa colaboração entre quem está construindo essa tecnologia e quem pode ver o que nós, de dentro, não conseguimos ver”. Um papa e um engenheiro de IA no mesmo palco, discutindo ética juntos. Isso, por si só, já é história.

Leão XIV também rompeu com tradições internas da Igreja. A Magnifica Humanitas foi a primeira encíclica publicada sem uma versão oficial em latim, seguindo uma mudança recente nas regulamentações do Vaticano. E o papa optou por apresentar o documento pessoalmente, ao contrário da maioria dos pontífices, que delegam essa tarefa a cardeais. Sinais pequenos, mas eloquentes, de que algo diferente estava acontecendo.

No fundo, a mensagem da Magnifica Humanitas pode ser resumida numa frase que o papa usa no documento: “Devemos guardar com amor a grandeza da humanidade que nos foi dada e que nenhuma máquina jamais poderá substituir.” Não é um grito contra a tecnologia. É um lembrete sobre o que não pode ser terceirizado, automatizado ou otimizado: a dignidade humana, a responsabilidade moral, a capacidade de cuidar uns dos outros.

Uma instituição com dois milênios de história acabou de dizer ao mundo tecnológico algo que os engenheiros mais lúcidos já sabem, mas que raramente alguém tem autoridade moral suficiente para dizer em voz alta: construir é mais fácil do que saber para que serve o que se constrói. E quando esse “para que” é perdido de vista, nenhuma sofisticação técnica compensa.

Bem-vindos à Primeira Encíclica da Era Digital.

https://static.poder360.com.br/2026/05/EnciclicaLeao-14-IA-25mai2026.pdf

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